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Todos os posts sobre Vida de Modelo

O que vocês sentem quando chega dezembro? Embora seja um mês de encerramento, eu particularmente sempre sinto que coisas muito boas estão a caminho. Desta vez elas chegaram antes do que eu imaginava. Há tantas novidades acontecendo que eu não poderia deixar de dizer o quanto sou grato a Deus por tudo. Devido a esse acúmulo de coisas aqui para contar, resolvi unir os acontecimentos anteriores com os desta semana, já que esta não foi tão agitada quanto a outra.

Bom, as novidades começaram quando fui indicado pelo Maurício (aquele do editorial Clássico Contraste) para participar do editorial de conclusão do curso de moda de um colega.  As fotos foram marcadas para o dia 5 de dezembro e de quebra ainda fui convidado para participar do desfile da coleção, o que só tornou minha felicidade ainda maior. Eu estava realmente com saudade de pisar em uma passarela.

Foi somente no dia das fotos que tive a oportunidade de conhecer o Wederson (Wed), designer que me selecionou e que me apresentou a um colega, Heitor Chaves, que também acabou me convidando para participar do fitting (prova de roupa) da sua coleção. Para ser sincero fiquei com um desejo enorme de aproveitar as duas coleções e fazer um editorial para o blog, rs.

A equipe com a qual trabalhei era totalmente composta de jovens iniciantes no ramo e foi fantástico dividir experiências e trabalhar com pessoas tão motivadas. As fotos terminaram bem depois do previsto, afinal, acabei usando três looks de uma coleção de cinco. Após este primeiro momento fui convidado por mais duas designers, Bia e Rebeca, para também desfilar para suas coleções.

Ao todo naquela noite acabei pegando 4 dos 16 desfiles. Os melhores apresentariam suas coleções no UMI Unifor Moda Integrada, ou seja, era um pré-desfile para o desfile oficial.

Ao fim de tudo o cansaço reinava, mas prevalecia a felicidade de estar de volta às passarelas e participar de toda essa experiência. E para os modelos que estão começando agora e querem saber como é esse tipo de trabalho, vale ressaltar que, embora seja algo pelo qual sou apaixonado, é também bastante cansativo. Neste caso foram dois dias de fotos e desfiles com tempo mínimo de intervalo entre um e outro, ou seja: poucos minutos para sair de uma passarela e estar pronto pra outra. Porém, tudo isso é muito gratificante, pois trabalhar com novos designers é também ajudar a realizar novos sonhos e projetos. Por isso, esse é sem dúvida um dos meus trabalhos favoritos.

Acredito que tudo isso é um presente de Deus. Sabe aquele sentimento de gratidão que mistura liberdade e felicidade? É exatamente assim que me sinto. E você? Qual presente Deus te deu este mês?

Abraços!

“Ele é esquisito, mas ao mesmo tempo é tão sexy (…)”.  Palavras de uma modelo ao falar sobre mim para um fotógrafo. Qualidades como “esquisito” fizeram parte de toda a minha vida, na verdade essa foi uma das principais formas de bullying que sofri da infância até a adolescência. Ao entrar para o mundo da moda isso não poderia ser diferente, porém, o mercado me fez perceber que o esquisito e o exótico ganharam um sentido muito além daquele que eu já conhecia. Isso poderia ser um sinal para me tornar um grande modelo fashion e foi a partir daí que comecei a me aceitar e gostar dessa característica que me definiu por anos. Quando era escolhido para trabalhos dizia para mim mesmo “quanto mais esquisito melhor, Daniel” e assim exagerava nas caras, poses e roupas. Porém, sempre me alertavam: modelos como você nunca farão moda praia tanto pelo corpo como pelo rosto.

Diante dessa observação eu sempre procurava fugir de castings moda praia alegando que não tinha a típica beleza de um modelo para tal trabalho(rosto de homem maduro) e quanto ao corpo, sabia que minha barriga me deixava com pontos a menos por não ser tão bem definida. Passei boa parte dos anos focado apenas no mercado high fashion da moda. Mas dizer que essa foi minha primeira vez posando para moda praia seria mentira, porém, de fato essa foi a maior até agora. Participar dessa campanha para a Mar Del Castro me fez pensar “olha onde o esquisitinho chegou!” Isso foi como um tapa na minha própria cara por ter a mania de sempre me limitar, pois mesmo odiando padrões e rótulos acabava me submetendo a um. Lembro-me de assistir a seus desfiles e dizer para mim mesmo que nunca trabalharia com ela justamente por não ter o perfil ideal. Mas olha só que mundo pra dar voltas, não?


Quadro do salão onde foi feito a maquiagem.

Durante as fotos me peguei pensando em quantas pessoas já deixaram de usar roupa de praia por medo do seu corpo, por insegurança, por se achar fora do padrão e percebi que vivi uma experiência parecida quando me limitei. Sabe aquela coisa de você só acreditar quando acontece com você? Foi essa a experiência que tive e pode ter sido a última campanha desse segmento que eu tenha feito, porém ela foi necessária para aprender mais de mim mesmo.


Ao longo do tempo poderia sim, ter cuidado do meu corpo. Inclusive até cheguei a começar, mas sempre apareciam coisas que me impediam e sempre adiava esse projeto. Alguém se identifica com essa situação? O fato é que às vezes nem era uma vontade minha, se tratava de apenas uma pressão que colocava em mim mesmo para agradar a um mercado. Após essa experiência não descarto a possibilidade de entrar numa academia e procurar uma melhoria, mas primeiro sinto que foi preciso me aceitar e saber que fazendo ou não, gosto do meu corpo.

A grande questão é que muita gente sofre por não se identificar com esses padrões, com esses corpos que aparecem nas campanhas e a pressão social é enorme devido a isso. São cobranças que vêm de todos os lados, inclusive da família, então você chega a um dilema: a quem realmente você quer agradar, a si mesmo ou aos outros? Saber o que se quer é o primeiro passo para viver tranquilo consigo mesmo. Se você quer seguir o padrão, tudo bem. Porém, esteja preparado para encarar uma vida de limitações, restrições e imposições, porque manter as medidas no tamanho exigido pelo mercado não é nada fácil nem tão simples como se pensa. Porém, ir contra uma sociedade inteira para fazer valer a sua vontade pode ser algo completamente perturbador. O segredo, então, é seguir o seu coração. É respeitar a si mesmo e se aceitar. É mudar apenas quando você achar que deve. Aliás, o segredo é esse, sempre. Faça aquilo que você acredita que é MELHOR PRA VOCÊ. Quando você passar a se sentir realmente bem, todo o resto é consequência.

Agradeço a Mar del Castro não só pelo trabalho, mas pela experiência de expandir minha visão.

Abraços!

“Na dúvida sobre o que vestir no casting de desfile opte por roupas totalmente pretas e de preferência use botas, pois elas passarão a ideia de que você é alto. Como somos modelos baixos dificilmente pegaremos desfiles, mas temos que passar essa falsa impressão de altura”, disse uma amiga que hoje é considerada uma das melhores modelos do Brasil e já pisou em várias passarelas. Essa foi sua resposta após eu lhe pedir ajuda em relação ao que deveria usar, logo que entrei nesse mercado. Apesar de possuir 1,80m de altura, para o mercado eu era considerado sempre muito baixo e isso me deu uma insegurança a qual carreguei comigo durante anos. Nunca imaginei que após essa conversa passaria tanto tempo indo a seleções usando somente botas e calças pretas com o objetivo de dar aquela falsa impressão.  Nos castings sempre era necessário mentir minha altura, pois se chegasse falando a verdade certamente seria descartado de imediato.

Mas esse tipo de atitude não era privilégio meu, havia modelos que assim como eu escolhiam sapatos com o solado o mais grosso possível também, no intuito de dar mais altura. Tudo isso porque modelos femininas de passarela tinham de 1,78m a 1,80m e com salto poderiam ficar maiores que os modelos masculinos e, claro, para o mercado não é esteticamente atraente mulheres mais altas que os homens. E são em momentos assim que surge o questionamento: de onde vem essa ideia de que homem não pode ser mais baixo do que mulher?

Ainda buscando respostas, vale ressaltar que a vida não se resume apenas as passarelas, ou seja, isso não é apenas um problema meu. Houve tempos em que tive a oportunidade de conversar com alguns garotos e até com alguns amigos e sempre era mencionado durante a conversa a já tão conhecida insatisfação com a altura, mesmo sabendo que todos estão no padrão de estatura brasileiro. Mas, e então, podemos dizer que a culpa é somente da moda? Não, mas matérias e dicas que o mercado insiste em pregar, como “dicas para alongar e afinar a silhueta” dão mais ênfase a esse complexo. Já cheguei a ler jornalistas e blogueiros mencionando o quão ridículo é um homem usar peça que dá a aparência de mais largo ou que lhe deixam “achatado”. Matérias como essas também circulam facilmente entre o mercado feminino, criando um padrão de estética de que o elegante são mulheres altas e magras. Infelizmente, com isso é criado um falso padrão de beleza prejudicando mulheres que não possuem esse biotipo e isso acaba afetando também os homens, mesmo que indiretamente, pois criamos a teoria (e algumas mulheres insistem em dar força para isso) de que homens devem ser mais altos que mulheres. Percebem o quanto isso é uma situação delicada?

Entendam, essas inseguranças (que não são exclusividade minha) modelos femininas, por exemplo, sempre têm receio com relação a estrias, celulite e quadril maior do que o padrão. Nos garotos a altura, barriga, cabelo, calvíce ou espinhas são características que até podem ser melhoradas, mas que tudo isso depende de existir uma aceitação por parte da pessoa e seu desejo de mudar ou não, porque é algo que está no seu corpo, como característica sua. Demorou muito para que essa insegurança saísse de mim, na verdade achava eu que jamais viveria sem ela. Durante a sessão de fotos sempre pedia o fotografo que fotografasse debaixo para cima, na tentativa de me alongar. Essas inseguranças podem lhe dominar, caso você não revide e comece a se impor. É preciso entender que características assim não te fazem menos atraente ou um modelo ruim. É necessário que se reconheça o talento que você possui sem precisar focar apenas no que te diminui, mas principalmente valorizando o que você realmente é.

Lógico que nem tudo se resume a essas matérias, mas é importante entender que você não precisa deixar de usar uma peça de roupa porque ela te deixou mais largo ou mais baixo, afinal isso de maneira alguma tira sua beleza. Mulheres, vocês não precisam se parecer com algumas modelos em questão de corpo. Homens, não é necessária “altura de modelo de passarela” para ser considerado bonito. Não deixe de apostar nas roupas que você quer independente delas te deixarem mais isso ou aquilo, afinal o que vale não é a aparência, mas a identidade e personalidade que você tem ao vestir roupas assim. Devemos sim, nos desprender cada vez mais desses rótulos. Se peguei passarela com minha altura? Poucas, daquelas de se contar nos dedos, mas isso não tira o crédito de coisas grandiosas das quais já tive o prazer de participar. E incrível como elas só apareceram agora, após desistir de tentar me encaixar no molde que o mercado queria me impor para finalmente passar a ser eu mesmo.

E quanto às marcas, é preciso repensar se o padrão imposto nos seus desfiles é algo conivente com nosso país multicultural e multirracial, pois há muito tempo os desfiles deixaram de ser eventos apenas para profissionais da moda para se tornarem abertos ao consumidor final. Bom, espero que minha opinião esteja valendo, afinal quem vos fala não é apenas um modelo que é considerado baixo para seus padrões, mas um cliente que também não se sente representado nessas ocasiões muito menos se encaixa nos já tão batidos padrões.

Abraços!

Padrão: de acordo com essas definições que a gente encontra nos dicionários, significa “modelo a ser seguido ou exemplo a ser copiado”. Automaticamente me vêm à cabeça aquelas frases comparativas que ouvimos na infância, quando nossa mãe diz “você deveria ser como o fulaninho. Olha só o fulano, aquele é que é um menino bom. Por que você não faz igual a ele?” Pronto, bastam essas comparações pra gente começar a se sentir mal, afinal não somos o tal fulano e muito menos gostaríamos de ser. Tudo o que queríamos, na verdade, era sermos amados, aceitos e compreendidos do jeito que éramos, meio desengonçados, amarrotados, envergonhados ou mesmo com a nossa timidez.

O fato é que crescemos ouvindo esse tipo de comparação e aquilo vai mexendo com a nossa autoestima. Porém, há uma ponta de esperança. Acreditamos que na vida adulta as coisas serão diferentes, afinal adulto faz o que quiser, certo? Errado. Quer dizer, era pra ser o certo, mas não é bem assim que as coisas funcionam. A gente cresce e pode fazer as próprias escolhas, mas o fantasma do padrão ainda nos assombra e agora mais vivo do que nunca. Quer entender melhor? Então experimenta ser diferente do que todos estão acostumados a pensar que é o mais bonito, o melhor, o que deve ser seguido.

Quer um exemplo? Tenho vários. Coloque uma modelo com número 42 desfilando para uma grife famosa. Entendam, estou me referindo a modelo, nada de digital influencer, atriz ou alguém que já tenha um público fiel e cativo independente de qualquer coisa. Dará certo? Não tem nem perigo. Ninguém aceitará, pelo contrário: o número 42, que cá entre nós, é sim, um número como qualquer outro, será excluído, humilhado, massacrado e comparado ao 38, ao 36, etc e começará toda aquela história que a gente já conhece. Outro exemplo, que por sinal é bem comum: quantas modelos negras se vê num desfile aqui mesmo, nas passarelas do nosso país?

Agora dê uma olhada ao seu redor e me diga: o número de pessoas negras nos comerciais, nas campanhas, nas novelas, no teatro, nos desfiles e no cinema é correspondente ou proporcional ao da população brasileira? Claro que não, afinal inventaram algo chamado padrão e criaram para ele um monte de regras que a maioria de nós está longe de conseguir /querer seguir. São padrões que não são nossos, mas que nos impuseram e todos os dias tentam nos fazer engolir goela abaixo, como se fôssemos obrigados a nos adequar ao que os outros querem e não sermos o que realmente somos.

Contudo, não seguir, não fazer parte, ser “diferente”, implica na maioria das vezes em ser também excluído. Gente gorda na moda só ganhará espaço como modelo plus size, não apenas como modelo. Haverá sempre um rótulo para diferenciar um modelo de um “modelo negro”, como se só a palavra modelo representasse gente comum e todos os outros considerados fora do padrão precisassem de uma palavra-complemento, um sufixo, uma explicação. Mas não somos todos gente comum? Deveria mesmo existir essa separação? Eu entendo que há uma segmentação de público, de estilo, de gosto, que há moldes que são desenhados para esse ou aquele corpo, com essas ou aquelas medidas. Porém, acima de tudo, somos humanos. E ser humano é ser igual em direitos, é precisar de representatividade, mesmo com suas particularidades.

Quando decidi seguir a carreira de modelo eu sabia que seria difícil, mas não imaginava que fosse tanto. Imaginem só um cara magro, sem músculos definidos ou barriga tanquinho estampar campanhas de marcas de roupa ou de acessórios! Como vender produtos masculinos não sendo o padrão masculino esperado pela mídia, pelas agências e até pelo próprio público? Porém, em toda correnteza há sempre alguém que nada contra e foi o que resolvi fazer. Recusei-me a aceitar que não posso, que não sou, que nunca serei. Simplesmente decidi que eu sou. Porque nunca engoli que eu deveria ser como o fulaninho, mas decidi ser eu mesmo em toda e qualquer circunstância e mostrar para quem quiser ver que ser diferente é normal, que homem pode usar qualquer peça e que querer que os outros sigam um padrão é torturar o ser humano lhe submetendo a uma condição. Padronização? Não. Vale mais a diversidade.

Por um mundo onde você possa ser o que quiser, de verdade.

Abraços!